Natal/RN, 06 de Julho de 2008

 

CANAIS


Confraria dos Crônicos
"Uma leitura que não lhe acrescentará nada além do prazer
já tão esquecido"


Bola ou carrinho

Existem dois tipos de homens no cenário urbano e peculiar brasileiro: os que gostam de futebol e os que gostam de carros. Claro que alguns exemplares do sexo masculino não se encaixam em nenhuma das categorias, mas são exceções que confirmam a regra. Também é muito incomum algum barbado se encantar pelas duas belezas, mas é possível. De qualquer forma, a imensa maioria se divide entre essas duas paixões.

Os homens, sempre egocêntricos, se forem perguntados, vão jurar que gostam dos dois, mas é só embuste. Qualquer homem sabe a dificuldade que é administrar dois amores tão diferentes, cada uma puxando para o seu lado e exigindo exclusividade. Situações desse tipo raramente perduram.

Essa escolha é feita logo cedo, ainda no berço, quando o pai fanático decora o quarto com as cores do seu time de futebol ou então enche o recinto com mil e um carrinhos de diferentes. Depois, dificilmente a criança irá contrariar o pai e deixará de seguir para o resto da vida a sina de idolatrar o futebol ou o carro.

Minha escolha seguiu o padrão natural da sociedade. Meu pai decidiu que eu gostaria do que ele sempre gostou e praticou: futebol. Sou louco por futebol desde pequeno. Pratico, assisto, comento, discuto e até brigo, mas evito. Não perco um jogo do meu time, seja na televisão ou no estádio. Até no rádio eu costumo acompanhar o jogo. Mas nesse caso tem que ter coração forte. É muita emoção.

Eu, como sou boleiro, não consigo entender o que é que tem um carro para ser tão especial. Para mim é apenas um meio de transporte. Um objeto que leva-e-trás. E mais nada. Eu nunca coloquei nomes em carros que tive como ‘fusca-bala’, ‘roxinho’ ou ‘meu xodó’.

Não gosto de ir para oficina, só coloco os acessórios essenciais e não entendo bulhufas de motor. Só sei abastecer e calibrar os pneus; e já é muito. Também não curto fórmula 1, não torço para nenhum piloto, só para os brasileiros. Faço questão de não saber quem foi o último campeão mundial decidido no Rio no último domingo.

Tem um cara que mora no meu prédio que todo final de semana passa horas alisando o carro dele. Ou está colocando um novo acessório, ou está consertando alguma coisa ou esta apenas lavando e polindo, como se encerasse a sala de estar da casa branca. É muita perda de tempo.

Os psicólogos afirmam que a idolatria por carros reflete uma personalidade insegura e narcisista. Há uma necessidade de aumentar a potência na máquina para se auto-afirmar e ter sensação de poder. Sem o carango maneiro o indivíduo é pouco interessante e sem atributos. O carro é o melhor da sua personalidade. Eu como não sou tão polido asseguro que isso é coisa de quem tem o pênis pequeno (apelei, ehehehe).

É acachapante a vantagem do futebol sobre o carro. Acompanhe comigo. Futebol faz bem para a saúde (de quem joga pelo menos), não polui e ainda é um hobby muito mais barato.

Portanto, a partir de hoje, pare de babar pelo seu carro, compre uma bicicleta e vá jogar bola, que é muito melhor.

Ah! Só para constar: nasci flamenguista e vou morrer ABCdista. Com muito orgulho.

Natal, 29/10/07

Bruno Magalhães
[brsmagalhaes@interjato.com]



 
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