Bola ou carrinho
Existem dois tipos de homens no cenário urbano e peculiar brasileiro: os que gostam de futebol e os que gostam de carros. Claro que alguns exemplares do sexo masculino não se encaixam em nenhuma das categorias, mas são exceções que confirmam a regra. Também é muito incomum algum barbado se encantar pelas duas belezas, mas é possível. De qualquer forma, a imensa maioria se divide entre essas duas paixões.
Os homens, sempre egocêntricos, se forem perguntados, vão jurar que gostam dos dois, mas é só embuste. Qualquer homem sabe a dificuldade que é administrar dois amores tão diferentes, cada uma puxando para o seu lado e exigindo exclusividade. Situações desse tipo raramente perduram.
Essa escolha é feita logo cedo, ainda no berço, quando o pai fanático decora o quarto com as cores do seu time de futebol ou então enche o recinto com mil e um carrinhos de diferentes. Depois, dificilmente a criança irá contrariar o pai e deixará de seguir para o resto da vida a sina de idolatrar o futebol ou o carro.
Minha escolha seguiu o padrão natural da sociedade. Meu pai decidiu que eu gostaria do que ele sempre gostou e praticou: futebol. Sou louco por futebol desde pequeno. Pratico, assisto, comento, discuto e até brigo, mas evito. Não perco um jogo do meu time, seja na televisão ou no estádio. Até no rádio eu costumo acompanhar o jogo. Mas nesse caso tem que ter coração forte. É muita emoção.
Eu, como sou boleiro, não consigo entender o que é que tem um carro para ser tão especial. Para mim é apenas um meio de transporte. Um objeto que leva-e-trás. E mais nada. Eu nunca coloquei nomes em carros que tive como ‘fusca-bala’, ‘roxinho’ ou ‘meu xodó’.
Não gosto de ir para oficina, só coloco os acessórios essenciais e não entendo bulhufas de motor. Só sei abastecer e calibrar os pneus; e já é muito. Também não curto fórmula 1, não torço para nenhum piloto, só para os brasileiros. Faço questão de não saber quem foi o último campeão mundial decidido no Rio no último domingo.
Tem um cara que mora no meu prédio que todo final de semana passa horas alisando o carro dele. Ou está colocando um novo acessório, ou está consertando alguma coisa ou esta apenas lavando e polindo, como se encerasse a sala de estar da casa branca. É muita perda de tempo.
Os psicólogos afirmam que a idolatria por carros reflete uma personalidade insegura e narcisista. Há uma necessidade de aumentar a potência na máquina para se auto-afirmar e ter sensação de poder. Sem o carango maneiro o indivíduo é pouco interessante e sem atributos. O carro é o melhor da sua personalidade. Eu como não sou tão polido asseguro que isso é coisa de quem tem o pênis pequeno (apelei, ehehehe).
É acachapante a vantagem do futebol sobre o carro. Acompanhe comigo. Futebol faz bem para a saúde (de quem joga pelo menos), não polui e ainda é um hobby muito mais barato.
Portanto, a partir de hoje, pare de babar pelo seu carro, compre uma bicicleta e vá jogar bola, que é muito melhor.
Ah! Só para constar: nasci flamenguista e vou morrer ABCdista. Com muito orgulho.
Natal, 29/10/07
Bruno Magalhães
[brsmagalhaes@interjato.com]
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